Wednesday, October 11, 2006

Texto 36
Ele partiu
e não voltou

“Qual dos Titãs foi atropelado?”, foi com essa pergunta que minha amiga Luciana me recebeu no colégio naquela terça-feira, 12 de junho de 2002. Como eu não estava sabendo de nada e conhecia o jeito piadista daquela minha amiga achei que fosse brincadeira e perguntei, rindo: “Como assim, atropelado?”. “Ah, eu ouvi alguma coisa no rádio, hoje de manhã. Não entendi direito. Só sei que foi uma moto”. Ela não sabia me informar mais nada, mas supus que não devia ser nada preocupante. Afinal de contas, um atropelamento de um adulto, por uma moto, não podia ser grave.
Na hora do intervalo, tirei meu celular da bolsa e vi que constavam nada menos que 18 chamadas não atendidas, todas vindas da casa de uma amiga titânica. Fui ao banheiro e liguei para ela. Quando disse que era eu só a escutei dizer, chorando: “Ele está muito mal”. “Ele quem? O que aconteceu? Pelo amor de Deus, me fala”. Depois de muito custo ela conseguiu me explicar tudo. Fiquei atônita por uns minutos, mas tentei acreditar que o Fromer sairia dessa, como havia acontecido com o Herbert Vianna, alguns meses antes.
Cheguei em casa, meus pais estavam almoçando e me vendo entrar cabisbaixa perguntaram: “Você já está sabendo?”. Respondi com um gesto de cabeça e fui para a frente da TV. Desde o início a imprensa falava em doação de órgãos e eu achava aquilo repugnante. Acreditei que ele fosse sobreviver, até os últimos segundos. Era surreal demais para mim — e para todos — perder um titã assim, de forma tão brusca e prematura.
Na quarta-feira, dia 13, veio o anúncio da morte cerebral. Eu não conseguia sair de frente da TV, talvez por não estar acreditando muito em tudo aquilo. Acho que minha ficha só caiu quando vi os Titãs e o Arnaldo Antunes, juntos, agradecendo e informando as pessoas sobre o velório. Pela primeira vez eu chorei, e meu pai, que estava ao meu lado também. Ele já perdeu grandes amigos e na hora me disse: “Eu sei o que esses caras estão passando”.
Aqueles dias foram difíceis. Foi o vazio mais estranho que senti em toda a minha vida. Como assim, sentir falta de alguém que nunca esteve ao meu lado? Nessas horas, tudo do que é humano, me é estranho.

Fernanda

“Ele partiu e não voltou” – Daqui Prá Lá (A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana – 2001)

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