Wednesday, October 04, 2006

Texto 27
Vou duvidar que é
pra poder acreditar


“Show dos Titãs no Parque do Vaqueiro”. Foi uma notícia estranha para todos os cearenses. Principalmente se levado em conta as bandas que tocariam no mesmo dia que eles. Seria um festival chamado Forró Pop, que misturaria o rock dos Titãs com bandas de forró. O local e a apresentação dos forrozeiros aliados à quantidade de outros grandes shows que aconteciam no mesmo fim de semana prejudicaram a presença de parte do público dos Titãs. De fato, no Parque do Vaqueiro, se encontravam apenas os fãs mais fiéis. Dentro dessa categoria, se incluíam as irmãs Samara e Marianny, que não poderiam deixar de ir ao tal show. Porém, mais uma vez, esbarram no problema do transporte.
O Parque do Vaqueiro ficava do outro lado da cidade, quase ultrapassando os limites de Fortaleza. E, novamente, encontraram a solução na tia Margarida. “Sempre que tiver shows dos Titãs podem me chamar, que eu vou!”, disse ela animada. Só que bem no dia do show, a primeira sexta-feira de julho de 2004, ela desistiu de ir dirigindo, já que havia boatos de que a estrada estava horrível, além de escura e perigosa. As meninas já ameaçavam entrar em desespero, quando surgiu a idéia de falarem com Kátia, um travesti que morava no bairro das meninas e que costumar organizar vans para eventos desse tipo. Kátia disse que sairia uma van para o local do show, e que elas podiam ficar tranqüilas. Então, lá foram as meninas para um praça, onde deveriam esperar a van. Ficaram esperando, esperando, esperando... Até que Kátia apareceu, parou uma van de um conhecido que passava por lá e negociou com ele ali, na hora mesmo, o transporte. Das duas uma: ou não existia van nenhuma e, por sorte, apareceu aquela, ou a que ela tinha combinado furou, e por sorte também, ela conseguiu encontrar uma substituta bem na hora. Mesmo não sendo esquema 100% seguro, Sam e Mary resolveram arriscar. Nessa mesma van ainda embarcariam mais algumas amigas das irmãs, como Hegly e Talita, que tinham conhecido há dois anos na fila de um dos shows dos Titãs.
A viagem foi demorada e, realmente, a estrada era escura, deserta e cheia de buracos. Todas deram graças a Deus por não terem vindo de carro. Já pensou apenas mulheres viajando por aquela estrada sinistra? Assim que chegaram lá tiveram a primeira surpresa da noite. Enquanto se encaminhavam para entrada, Margarida, que era a única que vestia a blusa do fã clube Força Titânica, teve seu braço puxado. Pensando que se tratava de um assalto, ou algo do tipo, gritou de susto, chamando a atenção das outras que iam à frente. Na verdade era Rafael, que notou pela blusa que aquelas pessoas eram do fã-clube do qual ele fazia parte, até então, apenas virtualmente. Depois do pequeno susto, todos entraram. Nesse momento, tiveram a segunda surpresa. O Parque do Vaqueiro era, sim, muito longe, mas não era o “inferninho” que pintavam. Tinha uma estrutura bacana, dois palcos, algumas mesas, chão de cimento e granito, quiosque espalhados pelo local. Não chegava a ser uma boate chiquérrima, mas é o suficiente para qualquer tipo de show.
Samara, sempre a eleita para fazer contatos com o produtor da banda, apesar de meio constrangida, teve de ligar para Fred, que disse que eles estavam na estrada e que em cerca 15 minutos chegariam. Fred orientou que eles ficassem na entrada que dava acesso ao camarim e disse que iria buscá-los, assim que chegasse. E assim foi feito, ele os buscou e até comentou que só achava ruim o contato no camarim, pois o tempo era curto. Ele não imagina como mesmo alguns poucos minutos ao lado de seus ídolos já valem ouro para qualquer fã.
No camarim só não estava Charles Gavin, que se encontrava no palco passando o som da bateria. Para surpresa da trupe, quem se encontrava naquele minúsculo camarim era toda família de Tony Bellotto, que passavam férias na capital cearense. A primeira coisa que fizeram foram entregar presentes para Tony e para Lee, que tinham feito aniversário há alguns dias. O presente de Tony era um livro de contos cearenses e o de Lee, uma camisa. Junto com os presentes havia algumas cartas e cartões, que fãs de outros estados tinham enviado para as meninas darem a eles. Tony agradeceu e disse que ia ler as cartinhas depois, mais sossegado no hotel. Ele ainda teve a idéia de tirar fotos com o presente. A idéia tinha que partir dele mesmo porque os fãs estavam tão estáticos e surpresos com a situação que não conseguiam nem raciocinar direito. Samara foi lá e tirou a foto do guitarrista com o presente, que depois entregou tudo para sua mulher, a atriz Malu Mader.
Samara parou por uns instantes – Malu Mader estava lendo a dedicatória do presente, escrita por ela! Sam, então, fez um esforço sobre-humano para resgatar as palavras exatas que tinha escrito, começou a repassar mentalmente vírgula por vírgula, afinal a Malu Mader estava lendo o que tinha escrito para o marido dela! “... o que te desejamos é que continue levando a vida com esse sorrisão no rosto. Um sorriso que parece abraçar o mundo, tornando insignificante qualquer tristeza. Levando uma guitarra a tiracolo, balançando meio mundo. Contando histórias. Criando, reinventando a arte de viver há 44 anos...” É, não era tão ruim e grave assim. Sam ficou tão entretida com isso, que mal percebeu a movimentação que se iniciou para clicarem fotos com os Titãs. Enfiou-se entre um e outro e acabou saindo nas fotos. Pouco depois, Lauro, segurança da banda, foi tirando o pessoal do camarim, dizendo que já estavam abusando. Bem que o Fred tinha dito que era pouco tempo...
Ficaram lá fora conversando com o Lee, que agradeceu o presente e revelou ser um visitante constante do blog do Força Ceará. E só com Lee, eles tiveram a oportunidade de falar da homenagem que o fã-clube, junto com o Teatro José de Alencar, estavam organizando para os Titãs. Eles disseram que tinham entrado em contato com o escritório da banda, mas Lee disse que não estava sabendo de nada, porém se mostrou disposto a ajudar. Depois, Charles saiu do palco e os fãs foram falar com ele. Entregaram o presente do baterista, que só faria aniversário alguns dias mais tarde. Tiraram fotos com ele, conversaram mais um pouco até ele entrar no camarim.
Os Titãs entraram no palco com a música Flores. A pergunta dos mais entendidos era: E Nós estamos bem? Música que abria o novo CD da banda, o Como estão vocês?, e também costumava ser a abertura do show. Para desapontamento de alguns, eles não a tocaram, mas não faltaram sucessos para agradar tanto aos fãs quanto aos menos conhecedores da banda. Músicas novas e algumas raridades também marcaram presença no set list. Destaque para o momento “five” ou “garagem”, onde eles dispensam os músicos de apoio e ficam só os cinco no palco. Paulo Miklos assume a segunda guitarra e Branco Mello o baixo. Para essa parte foram reservadas as músicas mais pesadas de discos como Cabeça Dinossauro e Titanomaquia.
Emerson Villani e Lee Marcucci, músicos que acompanham a banda desde a morte de Marcelo Fromer e a saída de Nando Reis, respectivamente, mostraram mais uma vez que estão super entrosados com o resto da banda, já podem ser considerados titãs honorários. Emerson, apesar de jovem, já carrega na bagagem ótimas experiência, já tocou com muitas pessoas, entre elas os próprios Miklos e Britto, além de participar das bandas Funk Como Le Gusta e Mamute, essa última em parceria com o Lee. Lee Marcucci dispensa apresentações, uma lenda do rock nacional, que fez história tocando ao lado de Rita Lee e no Rádio Táxi. Quanto aos Titãs por excelência, não há muito mais a acrescentar. Paulo Miklos sempre dominando com sua presença de palco, caretas e estripulias. Afinadíssimo ele cantou, pulou, gritou, dançou, tocou gaita, sax, guitarra e flauta, cantou, pulou... Sérgio Britto como sempre um homem em erupção e contraditoriamente o responsável por boa parte das baladas como Epitáfio e Enquanto Houver Sol, além da ótima nova versão para o reggae Go Back. Ele esbanja energia, como se estivesse ligado numa tomada. Tony Bellotto e sua guitarra, um caso a parte. Pode-se dizer que existe aí quase uma relação sexual, guardadas as devidas proporções. O prazer que ele tem em tocar é de enfeitiçar qualquer um. Os acordes, solos e riffs da guitarra de Tony parecem estar sempre nos convidando a fazer parte do show. Branco Mello sempre surpreendente, a cada música, ele desafia, ele inova, nada é “normal” quando o envolve, é realmente um “ser estranho”, no melhor sentido do termo. Volta e meia largava o microfone e pegava sua câmera filmadora para registrar partes do show, que eventualmente podem ser vistas na TV Titãs no site oficial da banda. Charles Gavin, figura que parece se isolar atrás da sua bateria, chamava a atenção a cada virada. Gavin mistura técnica, improvisação e emoção na dose certa, seja numa levada ou para descer o pau.
Para quem teve acesso ao set list do show, podem não ter agradado certas mudanças, como a saída de A verdadeira Mary Poppins e As Aventuras do Guitarrista Gourmet, que prometia ser a parte que levaria músicos e fãs às lágrimas ao relembrarem de Marcelo Fromer. Mas houve recompensas. Paulo presenteou os fãs no começo do show quando estendeu a bandeira do Força Ceará e no fim, já no momento no bis quando “fez” o resto da banda continuar no palco e cantar mais uma música, que aparentemente não estava programada, a escolhida pra fechar a noite foi É Preciso Saber Viver. Se alguém ainda tinha alguma dúvida do vigor desses quarentões, eles mostraram que ainda têm gás para mais uns bons 20 anos, pois eles “estão muito bem”! Fim de show, e hora de pegar a estrada de volta, ainda mais escura.
Samara e Marianny ainda tinham fôlego para, no dia seguinte, ir até o hotel, mas como chegaram muito cedo, resolveram esperar pelas amigas Talita e Hegly na praia que fica em frente ao Hotel Caezar Park. Ficaram lá pelo calçadão e, de repente, não mais do que de repente, viram sair do hotel Branco Mello. Falaram com ele, que perguntou se elas estavam no show e se haviam gostado – pergunta só não tão óbvia quanto a que ele faria depois: “O que vocês estão fazendo aqui? Estão passeando?”. Não, Branco, elas tinham ido ver os Titãs mesmo. Ele disse que estava dando uma volta, ficou um tempinho andando e voltou para o hotel. Elas sentaram e resolveram tomar uma água de coco. Foi quando Sérgio Britto saiu pra correr. Só que ele não as viu e nem elas tiveram a cara de pau de pará-lo.
Algum tempo depois, foi a vez de Fred sair do hotel. Ele as convidou para entrar, e só assim para as meninas tomarem coragem. Assim que entraram, viram Charles de longe, só que elas preferiram esperar pelas amigas, antes de ir falar com ele. Quando elas chegaram, se aproximaram do baterista. Falaram da homenagem e ele se prontificou a ajudá-las, disse que se achasse algo, mandaria por e-mail. Depois falaram com Branco, que também se mostrou bem interessado no assunto.
Nisso a mãe das irmãs ligou para o telefone de Mary, que falou para Sam que a mãe estava ligando toda hora, então, Branco perguntou se a elas tinha fugido de casa. Não, não era pra tanto! A preocupação da mãe nem era com elas, mas sim com o filho mais novo.
Pouco tempo depois, apareceu Tony com os dois filhos. Samara foi logo entregar outro presente, esse comprado e escolhido a dedo só por ela. Tratava-se do livro “Dizem Que Os Cães Vêem Coisas” do escritor cearense Moreira Campos, de quem a bairrista Samara falava com empolgação. Tony começou a contar a história da briga entre os vocalistas Chorão e Marcelo Camelo, que ele tinha acabado de ler no jornal. Ele falava que tinha sido no aeroporto de Fortaleza, só que Samara achava que isso era impossível, já que eles nem teriam show no Ceará, mas sim no Piauí. O que gerou uma pequena “discussão” entre os dois. Até que Sam desistiu, achando que Tony era quem estava enganado, mas quando chegou em casa e leu o jornal e notou que a errada era ela. Os cantores estavam fazendo escala no aeroporto de Fortaleza. Mais um mico para a lista já significante de Samara. O próximo a descer foi Britto já de banho tomado e super cheiroso, veio logo falando com as garotas. Elas falaram da homenagem também, ele achou super bacana. Paulo foi o último a chegar. Assim que ele desceu falou com elas e foi fechar a conta, depois foi tomar café. Quando a banda inteira estava no saguão, funcionários do hotel tiveram a idéia de fotografar com os cinco juntos. As fãs notaram que essa poderia ser a chance de, finalmente, tirar fotos com todos. Só que o pessoal do hotel ficou atrapalhando, tiraram várias fotos e eles já estavam super atrasados. Mas o Britto insistia: “Vamos tirar uma foto com as meninas!” Acabou que elas só conseguiram tirar foto com os BBB (Britto, Branco e Bellotto), mas já estava de bom tamanho!

“Vou duvidar que é pra poder acreditar” – Vou Duvidar (Como Estão Vocês? – 2003)

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