Wednesday, October 11, 2006

Texto 37
O amor que eu tenho
por você é seu


Era aula de biologia. Uma aula de biologia qualquer, como todas aquelas que eu tinha em todas as terças-feiras do ano de 2001, ano de maratona de vestibular. Até então, o único problema daquele dia em relação aos demais era o fato de ser outro 12 de junho a ser passado sozinha, sem um namorado para chamar de meu.
Foi quando a Luciana, amiga desde a primeira série do primário, veio falar comigo e com a Ferdi. Estávamos reunidas em um grupo, fazendo exercícios preparatórios para as provas do vestibular que já estavam batendo à porta. Lu chegou e logo disparou uma pergunta-bomba, que nada tinha a ver com reinos, filos, espécies, análises genéticas. “Qual dos Titãs foi atropelado?”. Atropelado? Como assim? Luciana não sabia explicar. Disse que tinha ouvido no rádio do carro enquanto o pai a levava para a aula, bem cedo naquela manhã. Pegou a notícia cortada. Não tinha mais informações. Veio perguntar porque julgava que eu, por ser fã da banda, já soubesse. Mas eu não sabia e aí milhares de incógnitas se formaram na minha cabeça.
Talvez a falta de maiores detalhes fosse sinal de que a coisa não tinha sido grave. Mas, grave ou não, eu estava preocupada. O que teria acontecido? Com quem? Queria saber, só que não tinha como sair da sala para averiguar a situação. Estava no meio dos tais exercícios e, para piorar, a professora tinha resolvido, no meio do caminho, que eles seriam mais que um simulado, mas uma espécie de prova valendo nota.
Meus colegas de classe tentavam me acalmar. Não devia ter sido nada de tão perigoso assim, senão eu já saberia. “Notícia ruim corre depressa”. Esforçavam-se para me convencer, em vão. Eu trocava olhares tensos com Ferdi. Só nós duas sabíamos o nível de preocupação que se instalara desde aquela fatídica pergunta da Lu.
Assim que soou o sinal do intervalo, corri para o banheiro, celular em mãos. Ligar para casa era o único jeito de obter alguma palavra elucidativa. “Minha mãe é do tipo que sempre está ligada nos noticiários, deve saber de algo”, pensei. Por um momento, tive um branco total. Não lembrava o número de casa, não lembrava que podia vê-lo na agenda do celular. Parei, respirei fundo, me concentrei até lembrar. Três, três, oito, três, meia, três, dezessete... Send. “Alô? Mãe? O que aconteceu? A Lu me falou de um acidente com alguém dos Titãs...”
Deve ter sido instinto materno, preocupação de mãe coruja querendo proteger a filhota. Fato foi que ela ficou muda, um silêncio revelador, assustadoramente revelador. Tinha acontecido alguma coisa séria, caso contrário minha mãe não teria se calado. Insistência, insistência, insistência. Até que, vencida, ela me contou. Marcelo, atropelado, internado, inconsciente. Só palavras-chaves ficaram na minha cabeça. Choro. Milhares de lágrimas correndo compulsivamente dos meus olhos.
Ferdi também estava ao telefone, na mesma missão de tentar descobrir algo — algo que, na verdade, não queríamos descobrir. Encarar a verdade, muitas vezes, é dolorido. Naquele 12 de junho foi mais ainda. Revelou-se, então, o grande problema daquele dia: Marcelo Fromer, pessoa de alegria radiante, grande ídolo, estava mal num CTI depois de ter sido atropelado em São Paulo por um motoboy.
O acidente tinha sido na noite anterior, mas não tive como saber antes. Havia ido dormir cedo — na época, ainda não era acometida de insônia nenhuma. Tinha acordado cedo, mas direto da cama para a aula. Não tinha mesmo como ter sabido antes, mas me culpava por não ter acompanhado tudo desde o princípio. Mesmo se eu estivesse lá, no local do acidente, bem na hora que o maldito motoqueiro passou e levou o Marcelo, eu não teria como fazer nada. Não era médica e nem um pouco afeita a assuntos de saúde — como não sou até hoje. Mas talvez pudesse ter rezado desde o início, talvez isso adiantasse de algo. Como não estava, comecei a rezar daquele momento em diante. Logo eu, totalmente contra os mandamentos da “Santa Madre Igreja”... Mas se Deus é Pai de todos, Ele ia aceitar minhas preces. Antes tarde do que nunca.
Ouvidas, elas devem ter sido. Só que não foram atendidas. Marcelo Fromer, o titã bon vivant, apreciador da música, do futebol, das comidas, das bebidas e de todas as coisas boas da vida, aquele cara que tinha me reconhecido num aeroporto e me tratado de igual para igual, num bate-papo divertido antes de cada um embarcar em seu respectivo vôo, aquele cara que ficava do meu lado esquerdo em cima do palco, na hora dos shows, aquele guitarrista cheio de energia e são-paulino roxo tinha morrido, depois de uma árdua batalha pela vida naquele leito de hospital. Valeram de alguma coisa as tais preces? Praguejar parecia minha única atitude possível, apesar de não mudar em nada os fatos.
A notícia veio pela TV, a mesma que costumava trazer para dentro da minha casa tantas imagens felizes com aquele mesmo Marcelo. Mas agora era diferente, era triste, era a última notícia, a que eu não queria mesmo saber. Os outros seis titãs, o Arnaldo... Tudo parecia tão aos pedaços, incompleto.
Pode parecer estranho, mas aquele dia, 13 de junho de 2001, e aquela morte me causaram uma dor tremenda. Muita gente nem entendi. “É só um artista, você nem conhecia o cara”, me diziam. Sim, eu o conhecia. Já tínhamos nos visto e nos falado uns pares de vezes, mas não era isso que me fazia afirmar que eu o conhecia, que ele era mais do que um ídolo efêmero. Era a energia que ele passava que o fazia próximo, mesmo que a quilômetros e quilômetros. A paixão com que fazia as coisas era contagiante — era um legítimo “jeito Marcelo Fromer” de viver e cativar.
Ali, na frente da televisão que me deu a fatídica notícia, também me despedi do titã. Mais uma vez, queria estar lá. Não pude. Dei meu último adeus — a meu modo, dentro das minhas possibilidades, com as minhas lágrimas —, junto dos amigos e companheiros de banda, a família e os outros milhares de fãs que, como eu, sofriam. Uma despedida triste, mas, ao mesmo tempo, um momento que me revelou que o Marcelo para quem eu dava “tchau” era o mesmo Marcelo que, para sempre, seria uma luz querida a brilhar nas minhas melhores lembranças.

Liliane

“O amor que eu tenho por você é seu” – Meu Aniversário (E-Collection – 2000)

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